ah, você acha que isso aqui é auto-ajuda? tanto faz, eu só quero mesmo ser um mix de Martha Medeiros e Carpinejar quando eu crescer. te mete.

(a saber: novas regras de pontuação, ortografia, gramática e estruturação são muito admitidas nesse blog. porque a língua se mexe e você nem sente.)

18.4.11

Da alegria


alegria miúda
Tenho uma amiga “engraçada” que diz não saber ser alegrinha. Ela diz que em shows lotados, blocos de carnaval, festas de fim de ano e outras ocasiões em que é obrigatório estar com a alma nas nuvens, ela está entediada ou se sentindo pesada com o dever de felicidade. Ela não curte amontoados de gente, cerveja, drinques, música alta e todo o pacote do alegre ordinário. O sorriso e a sensação leve não podem ser tirados a fórceps. Eu a entendo.

Alegria não é obrigação. Não é fórmula. One size does not fit all (Um mesmo tamanho não serve para todos). E como é essa coisa de que a alegria tem que ser tremenda, grande, com aglomerados, muitas luzes, gentes espalhadas e espelhadas uns nos outros?

Olhemos os pequenos: tenho uma turminha de 10 alunos, de 8 a 11 anos. Eles passam a aula prestando atenção em mim e uns nos outros, conversando em Inglês e se esforçando para aprender novas palavras, segmentos, frases. E quando eu digo “Let’s play a game!” (Vamos jogar um jogo!), o que eu escuto? Escuto a alegria ecoando em: eeeeeee! Não há fogos, não há muita gente, não há bebidas, não há banda, somos 11, sendo felizes por 10 minutos. Com pouco, por pouco tempo, trabalhando o pouco que vira muito. Significativo.

Os pequenos nos dizem que o miúdo pode ser um alegre grande. Basta pouco pra gente ser feliz, estar feliz por um tempinho. A sensação é efêmera, mas digam aí: o que nessa vida não é? E é por ela se estender por pouco que é tão preciosa, arrebatadora e buscada.

Óquei, num show há muita gente se divertindo, se sentindo bem, obrigado. Mas tem outro lado: a gente pode se sentir imprensado, amassado, enjoado, pode ser alérgico a cigarro e a chatos, pode ter antipatia a uma canção, levar pisão no pé, odiar pegação, ver alguém que não queria com alguém que a gente queria, ter dor de barriga, perder a carteira, cansar, pode apenas não querer estar ali. Pode não ser aquele o seu melhor momento, enquanto é o de muita gente. No show diário que a gente faz, é preciso pouco pra ser alegre. A gente dispensa platéia, ingresso, banda, espetáculo de luz, som alto, multidão, bebidas, roupa bonita, maquiagem e perfume caro. A gente só precisa de uma pequena razão pra se sentir bem, pro sorriso fluir, pra liberdade vir dar um oi.

Agora olhemos a pequena: depois de uma semana de muita dieta e de 9h ou 10h de trabalho por dia, a minha sexta-feira termina às 15h, depois da última aula semanal. Quando saio dessa aula, almoço e logo após passo numa loja de doces. Essa loja vende o docinho de nozes mais perfeito que conheço. Essa loja conhece a minha ansiedade pela felicidade comestível. É a hora da alegria. É uma alegria rotineira, um sentimento bom que me invade, junto com saber ter cumprido meu dever da melhor forma que podia. É o meu pedaço açucarado momentâneo de liberdade, é a hora de respirar e sorrir comigo mesma. É pouco, mas é meu, e é quando eu sei que a vida tem momentos simples e felizes. É quando páro e penso em tudo de bom que ocorreu nos últimos 7 dias, em como a vida segue e surpreende quem acredita que distribuir alegria é o segredo. E assim como esse instante-guloseima, há outros motivos simples pra elevar o humor, como escutar uma música boa, lembrar um momento vitorioso, pensar em alguém querido, ver uma criança correr, observar um casal de velhinhos, receber uma ligação inesperada, jogar papo fora com amigos, gargalhar com uma bobeira, sentir o vento no rosto ou acordar tarde num domingo.

As coisas simples podem ficar abafadas, podem passar despercebidas. A atenção ao mínimo que tem grande potencial de felicidade não é pra muitos, infelizmente. Não há que se ter apoteose. A alegria não precisa fazer estardalhaço, ela canta sussurrando. É preciso apenas uma pequena faísca para acender uma alegria na alma de quem reconhece o valor do simples. E adivinha quem acende essas faíscas?

O fogo é seu. E o espetáculo particular em miniatura também. Aproveite.

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