ah, você acha que isso aqui é auto-ajuda? tanto faz, eu só quero mesmo ser um mix de Martha Medeiros e Carpinejar quando eu crescer. te mete.

(a saber: novas regras de pontuação, ortografia, gramática e estruturação são muito admitidas nesse blog. porque a língua se mexe e você nem sente.)

24.4.11

Juntos



Tem aquele cara, sabe, aquele, que você achou bonitinho – um pouco, muito não – mas como você passou dos 30, você não quer dar razão à sua mãe que diz: “de tanto escolher, você vai acabar escolhida" (e é nesse exato momento que você se sente um tomate na xepa da feira), e você resolve dar uma chance a ele, esse cara bonitinho, mas não muito.

O cara se mostra um fofo. Talvez ele até seja. Talvez seja você que não tem mais tanta base para comparação (lê-se: tempos de cachorra Baleia). Talvez haja tanta coisa assombrosa nesse mundo moderno que uma pessoa que abra a porta do carro e dê chocolates acabe se destacando. Talvez.

Depois de muitas fofuras, algumas várias saídas, cinemas, bares, baladinhas juntos, ligações, emails e mensagens, ele não é mais apenas fofo.

Um tempo passa. Um bom tempo. E vocês? Ah, vocês continuam na mesma, na mesma do início, ou seja, apenas bons amigos-que-se-beijam, aka se enrolando mutuamente. É tanta enrolação, e ele então é mais que fofo e já passou a ser bem bonitinho pra você, mas que puxa, está tudo na mesma.

Agora, ele passou de fase: é um cara bacana, divertido, animado, bem-humorado, educado, fofo e bem bonitinho. E isso leva a um pensamento mais perigoso que cartão de crédito com limite alto: caramba, vocês têm tudo pra dar certo juntos. Muita coisa, você acha. Você acha.

Só você.

Não tem nada pra dar certo juntos se não há “JUNTOS”. Não tem fofo, se o tempo passou e tudo continua na mesma. Não é pra uma pessoa se destacar quando ela faz o feijão com arroz. Não tem bonitinho, quem colocou essa beleza toda na história foi você, só você.

Pra ele, é só mais uma história. Porque você é só bonitinha. E aquela ali também, e a outra, e a outra, e a outra.

E agora?

Desça do carrossel e pare de sonhar. 
A vida é mais. 
A vida conta tempo na nossa carteira de identidade, ela conta tempo no espelho, no creme anti-rugas, na forma de pensar, nos objetivos, no que há em volta de você e em quem permanence à sua volta. E só ele não vê o tempo passar? Ou é um caso de miopia especial para certos relacionamentos?

Quem tem tudo pra dar certo JUNTOS é você e a sua liberdade. Ou você e sua felicidade. Ou você e o que você quiser que dê certo. Ou você e aquele ali ó, aquele ali que reconhece que você é bacana, divertida, bem-humorada, educada, fofa e bem bonitinha.

Porque tem aquela mulher lá, sabe, aquela que ele acha bonitinha. E tem a outra, a outra, e a outra.

E tem você. Essa que tem tudo pra dar certo junto com a vida. 

18.4.11

Aconteceu [1]

Não criar expectativas, segundo o budismo, é meio caminho andado pra felicidade. Hoje fui obrigada a concordar com isso. 
Após uns 11 anos lecionando, você começa a perceber que a educação de crianças, adolescentes e pais não é mais a mesma. Enquanto minha mãe, que foi professora por mais de 30 anos, ganhava vários elogios e presentes de alunos e pais, hoje é raro receber uma ligação de agradecimento, que dirá um mimo qualquer. 
Mas Deos taí, ó, me dando tapa na cara a todo momento. E ele grita: a humanidade não está perdida, sua louca. 

Quatro horas da tarde, C.1 (que eu não sou besta de colocar nome de aluno aqui, hãaa) bate na sala dos professores e enfia o rosto na fresta da porta. Diz com a voz chorosa aguda de sempre: "Teeeeeeacheeeer, vem aqui." Fico pensando que C.1 deve ter alguma dúvida de última hora, visto que ela sempre precisa de atenção e explicação extras. No corredor, ela fala bem baixinho, do alto de seus 15 anos (o que ela vai fazer pode ser considerado pagar mico na idade dela...): "Teeeeacher, sabe o que é? Minha irmã foi pra Paris e trouxe isso aqui pra você porque eu pedi." Isso aqui, minha gente, é uma bela e reluzente barra de Kit Kat, também conhecida como consolo paradisíaco de quem não anda pegando ninguém. Eu sorri pra C1 (que é bela bela bela, e reluz muito mais que Kit Kat, mas ela só vai se tocar disso daqui a muitos anos) e dei um abraço muito apertado nesse anjo doce. Eu havia falado em aula, um dia, que adorava Kit Kat. Ela se lembrou. Ela pediu à irmã pra trazer. De Paris. Ela me deu na semana da Páscoa. Ela não achou que era mico. Ela é uma fofa com olhos brilhantes e risada ingênua. Eu quase chorei. Não pelo Kit Kat em si, mas porque isso é um gesto e tanto. Ela me agradeceu assim a atenção e paciência que tenho com ela. Eu sou paga pra isso, minha gente. Ela nem precisava fazer isso, entende?

Seis horas da tarde, C.2 (que incrivelmente tem o mesmo nome de C.1) entra na sala esbaforida pra fazer prova. Ela é a minha Miss Sunshine, mas eu nunca contei a ela. Eu sou louca por essa criança de 9 anos. Ela tem uns óculos gigantes, anda com o cabelo meio despenteado e é meio desengonçada, tem um jeito engraçado de andar, falar e dançar. Mas ela brilha muito, assim como C.1. Talvez ela seja uma C.1 daqui a uns 6 anos, há grandes chances. C.2 traz algo na mochila, está com as duas mãos dentro da mochila enorme. Está ansiosa. Ela diz com uma voz meio grossa "Teeeacher, eu tenho um negócio pra você." E mostra um pacote de papel, em formato de bombom, um presente, escrito "Happy Easter" e me dá. Ela está orgulhosa, o óculos está na testa quase. Ela pediu à mãe pra me dar presente de Páscoa. Ela teve esse gesto. Eu dei um abraço bem apertado nessa Miss Sunshine carioca. Eu quase chorei. Não pelos caramelos, que são um momentinho de prazer para alguém que só abraça travesseiro,  mas porque isso é um gesto e tanto. Eu nunca precisei de muita atenção nem paciência com C2., porque ela é uma ótima aluna, muito esperta, pega todo o conteúdo da aula muito rápido. Ela é o caramelo. Eu nunca precisei fazer nada mais do que estar ali. Eu sou paga pra isso, minha gente. Ela nem precisava fazer isso, nem a mãe dela, entende?


Duas horas da manhã, Miss P. aqui pensando que Deos bate de luva, mas que desperta, desperta. 

E sacode.

Sou mulher de malandro nessa hora, agradeço o solavanco. 

Aconteceu hoje (porque hoje pra mim é relativo), dia 18 de abril. 

Da alegria


alegria miúda
Tenho uma amiga “engraçada” que diz não saber ser alegrinha. Ela diz que em shows lotados, blocos de carnaval, festas de fim de ano e outras ocasiões em que é obrigatório estar com a alma nas nuvens, ela está entediada ou se sentindo pesada com o dever de felicidade. Ela não curte amontoados de gente, cerveja, drinques, música alta e todo o pacote do alegre ordinário. O sorriso e a sensação leve não podem ser tirados a fórceps. Eu a entendo.

Alegria não é obrigação. Não é fórmula. One size does not fit all (Um mesmo tamanho não serve para todos). E como é essa coisa de que a alegria tem que ser tremenda, grande, com aglomerados, muitas luzes, gentes espalhadas e espelhadas uns nos outros?

Olhemos os pequenos: tenho uma turminha de 10 alunos, de 8 a 11 anos. Eles passam a aula prestando atenção em mim e uns nos outros, conversando em Inglês e se esforçando para aprender novas palavras, segmentos, frases. E quando eu digo “Let’s play a game!” (Vamos jogar um jogo!), o que eu escuto? Escuto a alegria ecoando em: eeeeeee! Não há fogos, não há muita gente, não há bebidas, não há banda, somos 11, sendo felizes por 10 minutos. Com pouco, por pouco tempo, trabalhando o pouco que vira muito. Significativo.

Os pequenos nos dizem que o miúdo pode ser um alegre grande. Basta pouco pra gente ser feliz, estar feliz por um tempinho. A sensação é efêmera, mas digam aí: o que nessa vida não é? E é por ela se estender por pouco que é tão preciosa, arrebatadora e buscada.

Óquei, num show há muita gente se divertindo, se sentindo bem, obrigado. Mas tem outro lado: a gente pode se sentir imprensado, amassado, enjoado, pode ser alérgico a cigarro e a chatos, pode ter antipatia a uma canção, levar pisão no pé, odiar pegação, ver alguém que não queria com alguém que a gente queria, ter dor de barriga, perder a carteira, cansar, pode apenas não querer estar ali. Pode não ser aquele o seu melhor momento, enquanto é o de muita gente. No show diário que a gente faz, é preciso pouco pra ser alegre. A gente dispensa platéia, ingresso, banda, espetáculo de luz, som alto, multidão, bebidas, roupa bonita, maquiagem e perfume caro. A gente só precisa de uma pequena razão pra se sentir bem, pro sorriso fluir, pra liberdade vir dar um oi.

Agora olhemos a pequena: depois de uma semana de muita dieta e de 9h ou 10h de trabalho por dia, a minha sexta-feira termina às 15h, depois da última aula semanal. Quando saio dessa aula, almoço e logo após passo numa loja de doces. Essa loja vende o docinho de nozes mais perfeito que conheço. Essa loja conhece a minha ansiedade pela felicidade comestível. É a hora da alegria. É uma alegria rotineira, um sentimento bom que me invade, junto com saber ter cumprido meu dever da melhor forma que podia. É o meu pedaço açucarado momentâneo de liberdade, é a hora de respirar e sorrir comigo mesma. É pouco, mas é meu, e é quando eu sei que a vida tem momentos simples e felizes. É quando páro e penso em tudo de bom que ocorreu nos últimos 7 dias, em como a vida segue e surpreende quem acredita que distribuir alegria é o segredo. E assim como esse instante-guloseima, há outros motivos simples pra elevar o humor, como escutar uma música boa, lembrar um momento vitorioso, pensar em alguém querido, ver uma criança correr, observar um casal de velhinhos, receber uma ligação inesperada, jogar papo fora com amigos, gargalhar com uma bobeira, sentir o vento no rosto ou acordar tarde num domingo.

As coisas simples podem ficar abafadas, podem passar despercebidas. A atenção ao mínimo que tem grande potencial de felicidade não é pra muitos, infelizmente. Não há que se ter apoteose. A alegria não precisa fazer estardalhaço, ela canta sussurrando. É preciso apenas uma pequena faísca para acender uma alegria na alma de quem reconhece o valor do simples. E adivinha quem acende essas faíscas?

O fogo é seu. E o espetáculo particular em miniatura também. Aproveite.

17.4.11

O efeito Hollywood

"Juntos pelo acaso" - mais uma comédia romântica. e assunto pra crônica.
E aí você vai ao cinema e decide, sabe-se lá por que, ver uma comédia romântica. E comédia romântica é aquilo: as falas certas, nas horas certas, o cara ideal (ou nada ideal) diz e faz coisas ideais, ou diz e faz coisas nada ideais e depois se arrepende e, por fim, diz e faz coisas ideais. O que se tem é sempre o mesmo: muitos suspiros femininos; a idealização do relacionamento: um casal no qual ambos reconhecem e admitem seus erros e fazem de tudo para mudar. A comédia romântica é o diabo enlatado.

“Será que esses roteiristas são, em sua maioria, mulheres? Porque cabeça de homem não funciona como em comédia romântica, definitivamente...”

Então, você sai do cinema pensando em sua relação e em todos os poréns dela. “O quê está certo? O que está errado?” Por que você não consegue melhorar o seu relacionamento? Será que esses filmes hollywoodianos estão tão distantes da realidade assim? Será que você quer o impossível?

“A vida não é filme e você não entendeu...”
A vida não é sonho, você sabe.
Mas a vida pode ser melhorada e admite ajustes, você bem sabe.

Ninguém pode colocar nas costas do outro a responsabilidade por sua própria felicidade, baita clichê. Você pode, sim, analisar se está feliz numa relação.
Você é romântica e seu par nem tanto... Ou quase nada... Você já tem 1 ano, 2 anos, 5, 10, de namoro, casamento, noivado, whatever, e “puxa, nunca ganhei flores...”.Ok, você não tem mania de grandeza, você não está falando de um buquê de tulipas albinas do Noroeste da Holanda, você está falando de umas 3 rosinhas da xepa da feira mesmo. E você também nunca foi convidada para um jantar romântico. E tem muito tempo desde aquela última surpresa que ele fez pra você. E ele se esqueceu de comprar um presente para você no seu aniversário. E quando foi mesmo a última vez que ele escreveu um bilhetinho amoroso pra você? Caramba!
Você não quer Hollywood na sua vida. Você quer coisas simples. Talvez ele não saiba das coisas de que você gosta, apesar de tanto tempo juntos. Sensibilidade não é característica básica do cromossomo Y.
Você, então, explica pra ele; “Querido, é assim que gosto, essas coisas fazem diferença pra mim, assim como faz diferença tudo que faço para deixar você feliz.” Faz diferença na relação. Você teve didática, você repetiu e checou com ele se entendeu. Ele disse que tinha entendido e que ia mudar.
De repente, é sexta à noite de novo e a vida em conjunto continuou como domingo à tarde: a mesma coisa morna. Aquele açúcar que você queria de vez em quando não veio nem como adoçante. Você está sonhando muito com Hollywood?
Todos têm defeitos, talvez a ausência de romantismo seja o defeito do seu amado. Coitadinha de você, hein... Ele tem qualidades bacanas e você as conhece. Mas será que não se pode lutar contra um defeito, quando se sabe que a relação pode melhorar muito caso você assim o faça?
Talvez a paixão tenha acabado e esse marasmo é algo típico do amor, essa outra fase que você acha estar vivendo. “Então, o amor é chato, né?!”
As pessoas tornam o amor chato, escolhem torná-lo uma lagoa bonita, mas sem nenhuma marola. Você sabe que já viveu amores mais surpreendentes...
Você pode largar isso pra lá, pode dar uma banana para Hollywood e seus roteiros românticos ou pode dar um tchau a quem faz do amor algo sem bossa. Bem, se a vida fosse fácil, esse texto não valeria para nada (se é que vale...). E seus sentimentos, onde ficam?
Essas perguntas admitem n respostas, cabe a você achar a sua. Relacionamento exige empenho, dedicação e esforço de compreensão. Você pode pesar prós e contras. Você pode continuar na mesma. Você pode começar a olhar em volta. Você pode sair em busca do que você quer. Você pode acreditar na sua relação. Você pode dar uma chance ao amado, mais uma, mais outra e mais dez vezes dez. Você pode acreditar na força do seu amor. Você pode ficar sozinha e romantizar-se por aí.
Você não pode deixar outra pessoa lhe dizer que “você está querendo demais” porque você sabe e já comprovou que não, você quer algo simples.

Em “Juntos pelo acaso”, após ver uma briga da namorada com o ex-namorado dela, aquele médico bonitão diz “Vá ficar com ele. Se eu brigasse assim com a minha ex-mulher, nós ainda estaríamos juntos.”
É isso.

Você só não pode desistir de lutar.
Você só não pode se conformar.